domingo, 19 de abril de 2009

Semear idéias, espargir conhecimento.


Gosto de discutir idéias abertamente. Sinto como se lançasse sementes ao vento. A natureza se encarrega de guiá-las para terras férteis, sob a luz do sol, onde um dia germinarão. Guardá-las comigo seria o mesmo que confiná-las num celeiro de avareza à mercê dos carunchos do egoísmo.
Desculpe. Não posso tratar esse assunto como se fosse simplesmente um caso de mesquinhez. Não posso tratar as pessoas que assim agem como se fossem egoístas, até porque boas idéias podem representar muito mais do que dinheiro, podem ser uma questão de sobrevivência.
Nos meus últimos anos na ativa da Força Aérea, coloquei em questão todo o conhecimento que adquiri em promover mudanças e tentei interferir positivamente no meu ambiente de trabalho. Tive muitas surpresas. Tive muitos conselhos do tipo: -“por que você não guarda isso para a reserva e monta uma empresa para prestar serviço para a FAB? ” Sei lá, respondia. E na verdade não sabia mesmo o porquê disso. Vejo hoje que empresas que servem a Aeronáutica têm uma produtividade altíssima, e que todo o corpo técnico de seus funcionários, resolvendo questões crônicas, é oriundo das fileiras da própria Força.
Certa vez, um dileto amigo, ouvindo minhas idéias para contornar nossas dores operacionais assim me disse:
Contam que numa comunidade aborígene australiana, que se dedicava a criar porcos selvagens, se deparou com um grande contratempo. Um enorme incêndio na floresta dizimou 90 por cento de sua criação. Como a carne crua e salgada do suíno era sua principal alimentação, um período de muita privação se anunciava no grupo. Tendo o estômago remoendo de fome, um jovem se deparou com um porco todo queimado. Não resistindo, pegou o pernil assado e com uma cara de nojo provou a iguaria. Sua surpresa logo se espalhou pela tribo e todos passaram a comer voluptuosamente os assados.
Com o sucesso da nova modalidade alimentícia, muitos incêndios foram provocados como motivo de festa e em pouco tempo, tanto os porcos como as florestas já eram escassos. Especialistas desenvolveram técnicas para aproveitar os melhores ventos nos incêndios. Outros se especializaram em descobrir a melhor umidade do ar. Também havia aqueles que se especializavam em procurar motivos para festejar. Foi então que, diante da vertiginosa escassez de matéria prima causada pelos incêndios indiscriminados, surgiu um visionário. Chamou o chefe, juntou alguns gravetos no chão, acendeu uma pequena fogueira, matou um leitão e o colocou para assar.
- Viu? - disse o jovem ao chefe. É um pequeno incêndio que assa um só porco por vez. Assim não há desperdício e não acabamos com a floresta...
- Espetacular, disse o chefe.
- Então vamos programar isso bondoso chefe?
- De jeito nenhum!
- Mas, por quê?
- Parece ser uma boa idéia, mas o que faremos com nossos especialistas em vento, em umidade e em festas?

Não há sistema que aceite idéias simplistas. Muito mais do que resolver problemas, precisamos entender a quem pode interessar cada solução.

Já que isso é uma realidade, eu continuo a espargir sementes e a alimentar sonhos de um Controle de Tráfego Aéreo próspero, seguro e livre de interesses abstrusos.
Celso BigDog


Um comentário:

  1. Caro Celso, para mim você é um visionário. Mas também um sonhador. Nada contra os visonários e/ou sonhadores.

    Mas quando me recordo através de suas postagens, que temos o 'HOMEM' sendo preterido pela 'MÁQUINA'. Que os interesses de alguns estão além de 'queimar florestas e porcos'. Que boas idéias, cujo nascedouro foi o cérebro pensante de quem executa, de quem conhece o mundo ATC, são simplesmente desenvolvidas (mormente renomeadas) e apensas a currículos daqueles que só querem queimar porcos e florestas.

    Fico com o que vi, vejo todos os dias no mundo ATC. Realidade esta: MESQUINHA, INDIVIDUALISTA e movida por interesses menores.

    Certa feita ouvi de um integrante engravatado da ATECH - Essa idéia é muito boa. Vocês podem detalhá-la melhor?

    Eu, um dos poucos dissonantes, disse - NÃO. Afinal a sua empresa tem um contrato com o COMAER. Eu sou um funcionário público federal (militar) que irá fornecer uma 'solução mágica' não só para este sistema (X-4000). Irei também gerar um aditivo contratual de alguns milhares de reais. Onerando, com isso o erário público.

    Paradoxal. Pois, como servidor público federal, devo estar imbuído dos Princípios da Economicidade, da Racionalidade de meios, da Oportunidade. Isto sem contar com a estrita observância de outros Princípios Administrativistas - Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência.

    Quando o mais fácil era ter convocado as pessoas certas para discutir as particularidades sistêmicas. E, além disto, a sua empresa (ATECH), por certo, transformará este implemento em milhares de dólares, quando do 'upgrade' e venda a outros países.

    Mas, sabes, por que não ocorre algo sensato assim?

    Primeiro - O INTERESSE;

    Segundo - O DINHEIRO;

    Terceiro - BENEFÍCIOS INDIRETOS;

    Quarto - A GESTÃO MILITAR - Por sermos parcela ampla e mal remunerada no seio da sociedade brasileira, o nicho de oportunidade, nomeado de INTERESSE ESTRATÉGICO NACIONAL está umbilicalmente conexo a tudo aquilo que possa ser tratado como RESERVA DE MERCADO.

    Assim sendo, justifica-se a ida para a reserva remunerada, e, consequente contratação por parte de empresas (POUCAS) focadas no segmento.
    O ex-militar da ativa levará consigo um misto de coisas.

    IDÉIAS. Puramente suas e boa parte das vezes desenvolvidas sem o apoio da Administração Federal (cursos, workshops, atualizações, leituras diferenciadas e pesquisas).

    Mas, leva com ele também, o chamado 'PULO-DO-GATO'. Que foi o uso fruto de - material, energia, viagens, cursos internos, posição hierárquica, pessoas subordinadas. Tudo claro, deveria estar a serviço da Administração Federal quando do período de efetivo serviço ativo). Como recompensa levaria para a reserva remunerada sua justa remuneração. Diferenciada do extrato civil.

    Mas aí mora o MAL. Não basta. Então o que fazer?

    Surgem os 'contratos', 'sopões', 'tarefa por tempo certa' e outros expedientes que são atrelados a - NECESSIDADE CONTINUA DE LIDAR COM UM PRODUTO ESTRATÉGICO DE INTERESSE NACIONAL.

    Pronto! Mais uma vez perpetuaremos o ciclo.

    É com esta simplicidade que podemos entender por que a Força Aérea Brasileira relutou em aceitar a criação da ANAC (em substituição ao DAC).

    É assim que vemos a relutância velada em aceitar o reposicionamento da INFRAERO no organograma nacional (leia-se - competências e finalidades).

    E, é assim, por derradeiro, que vemos que não querem 'largar o osso'. Que é a vertente civil do mundo ATC. O tráfego numeroso, rentável e mal aproveitado da Circulação Aérea Geral.

    Urge reformularmos a Lei Complementar Nº 97, de 9 de junho de 1999, que "Dispõe sobre as normas gerais para a organização, o preparo e o emprego das Forças Armadas."

    É esta discussão que está em jogo. Não vou por aqui abordar os setores queixosos quanto ao PND ou END. Ali as vaidades são ínsitas a perda de PODER e STATUS.

    Por agora, caro Celso Big DOG, agradeço o espaço para o exercício DEMOCRÁTICO no campo das idéias. Não falo pelo COMAER, pois não possuo procuração. Sinto pelo anonimato.

    Quanto às IDÉIAS, com as quais não pude transformar os IDEAIS... morrerão comigo.

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